Bolo com sabor de infância vira negócio de gente grande

Na Vovó Faz Bolo, as receitas de duas avós viraram gramas e fichas técnicas — e é justamente esse rigor que mantém, há 14 anos, o gosto de infância exatamente igual.

Publicado em 1 de outubro de 2026 às 15:11

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Toda avó tem um caderno de receitas — daqueles de letra torta, manchas de gordura e medidas em xícaras, colheres e punhados. A Vovó Faz Bolo nasceu de dois cadernos assim. De dona Talita, avó materna de Bianca Trevisol, veio o bolo de laranja que deu origem a tudo. Da nona Barbarina, avó paterna, veio a hospitalidade que se sente logo na porta. Em 2012, mãe e filha, Rozane e Bianca, começaram na garagem de casa, no bairro São Cristóvão. Catorze anos depois, a casa da vovó tem endereço no Centro de Lajeado e uma cafeteria que virou ponto de encontro.

A casa da vovó, desde o primeiro dia

A atmosfera afetiva não foi somada aos poucos: as toalhas de crochê, os quadrinhos com frases bordadas e as plantinhas nas mesas já estavam lá na inauguração. Quem entra é recebido pelo cheiro de bolo recém-saído do forno. No centro de tudo, o bolo de laranja — o mais simples e gentil da casa, feito com a receita da infância de Bianca, da primeira fatia que ela provou na cozinha da avó. É o número 1, o que fundou o negócio e inaugurou um jeito de fazer as coisas por ali. Segue entre os mais vendidos — e leva junto, em cada fatia, a memória que o originou.

Afeto que se mede em gramas

Por trás da ternura há método — e sempre houve. Antes da Vovó Faz Bolo, Bianca construiu carreira como nutricionista na indústria, habituada a fichas técnicas, controles e escala. Levou tudo isso para a cozinha da loja. As receitas das avós, antes anotadas em medidas caseiras, foram convertidas para gramas, e assim permanecem: os mesmos ingredientes, as mesmas marcas, o mesmo modo de fazer. Nada de artifício para prolongar o sabor — a garantia é a fidelidade ao preparo original. É o que sustenta a confiança de quem volta: reencontrar sempre o produto que ama, no ambiente de que gosta. Foi também com esse rigor que a marca testou dois braços de franquia, em Santa Cruz do Sul e Passo Fundo. As experiências ensinaram que ainda não era a hora de franquear: encerradas com gratidão, deram lugar à decisão de concentrar forças na unidade de Lajeado e ampliar a cafeteria.

“Ou você padroniza, ou não sustenta a qualidade ao longo dos anos. A nossa qualidade é a originalidade.”

Da mesa de bolos ao almoço da vovó

Foi o cliente que transformou a cafeteria em restaurante. De tanto pedirem “a comidinha da avó”, o arroz e o feijão de casa, o almoço entrou no cardápio — inspirado, como tudo por ali, no receituário da família. Aos mais de 40 sabores de bolos, sempre renovados na mesa do dia, somam-se rosquinhas de queijo, pão caseiro, pastéis espichados no rolo (com cachaça na massa, como manda a receita antiga) e os bolinhos de chuva que aparecem no frio. E há novidades a caminho: uma linha sem trigo — não voltada a alérgicos, já que a cozinha não é livre de contaminação cruzada, mas a quem faz essa opção alimentar —, a volta dos bolos sem açúcar, os folhados e um rodízio de brigadeiros e salgadinhos que a casa quer transformar em kit festa.

“O amor que eu tenho por esse negócio vai além da razão. É muito coração.”

Mais que uma loja de bolos, a Vovó Faz Bolo é, nas palavras da proprietária, um oásis — lugar de descansar a mente, recordar e acalmar o coração. Todos os dias, a casa coleciona depoimentos de quem se senta a uma mesa e viaja no tempo: um objeto na parede, uma fotografia, um cheiro que devolve alguém à cozinha da infância. E esse acolhimento começa de dentro para fora: para receber bem quem chega, diz Bianca, a equipe precisa antes se sentir cuidada — por isso zelar pelas pessoas que trabalham ali importa tanto quanto agradar os clientes.

A casa também formou gente. Os dois filhos de Bianca já vestiram o avental da empresa: trabalharam de carteira assinada no atendimento, recebiam os clientes e ajudavam no que fosse preciso — e ali nasceu um afeto que passou longe do currículo. As pessoas se encantavam ao saber que os netos da vovó estavam servindo a mesa, e até hoje perguntam por eles. Os dois seguiram outras carreiras, mas continuam por perto: aparecem no rodízio, atendem, ajudam a servir quando a casa aperta. Afinal, são parte de como esse negócio se sustenta — com gente da família.