Cento e vinte anos de pés no chão
A cooperativa fundada por 18 lajeadenses em 1906 — e que quase fechou as portas nos anos 1990 — chega aos 120 anos com mais de 126 mil associados no RS e em MG, fiel à proximidade de sempre.
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 16:48
No dia 1º de março de 1906, 18 lajeadenses ligados ao sindicato agrícola criaram a Caixa Econômica e de Empréstimo de Lageado — na grafia da época, com G. Nascia para aproximar quem tinha recursos de quem precisava. O cooperativismo já corria nas veias da região, colonizada por alemães e italianos habituados a trabalhar junto: quatro anos antes, em Nova Petrópolis, o padre Theodor Amstad fundara a primeira cooperativa de crédito da América Latina, hoje Sicredi Pioneira. A “Caixinha” de Lajeado seguia o mesmo espírito e é das mais antigas em atividade no país.
A caixinha que atravessou o século
Em 1926, a cooperativa trocou o modelo alemão de Raiffeisen pelo italiano Luzzati e virou Banco Popular de Lageado. Atravessou guerras e a reforma bancária dos anos 1960 — a “Era do não pode”, quando só se podia captar e emprestar. O momento mais delicado veio nos anos 1990: em 1º de dezembro de 1993, ao ingressar no Sistema Sicredi, restavam quatro associados — e o Banco Central já estudava decretar seu fim. Uma nova diretoria e o respaldo do sistema garantiram mais uma chance. Três anos depois, abriu-se à cooperativa o leque de produtos de uma instituição comercial.
De uma sala de 80 metros a dois Estados

Em 1993, toda a operação cabia numa sala de 80 metros quadrados na Júlio de Castilhos. O crescimento pediu espaço, e a venda do imóvel — exigência da época — deixou uma dívida moral com o associado, quitada em 2017 com a sede de mais de 8 mil metros quadrados, ideia do ex-presidente Ruben Neitzke. “Entregamos um empreendimento cem vezes maior do que aquele que precisamos vender”, resume o presidente Luiz Mário Berbigier.
A partir de 2019, a Sicredi Integração RS/MG cruzou a fronteira gaúcha rumo a Minas Gerais — nas regiões de Conselheiro Lafaiete e Montes Claros já reúne mais de 40 mil associados. Da agência única de Lajeado, chegou às 40 agências de hoje, em 25 municípios de três áreas de atuação — uma no RS e duas em MG — que somam 63 cidades. A lógica de estar perto segue viva: prepara-se a oitava agência de Lajeado, para 13 mil moradores dos bairros Campestre, Olarias e Centenário, hoje sem instituição financeira por perto.

O que o dinheiro não explica
Mais de 500 colaboradores e quase R$ 9 bilhões em recursos administrados dão a dimensão — mas não explicam o essencial. “Não somos uma sociedade de capital, e sim uma sociedade de pessoas”, define a diretoria. O diferencial está na relação: quem entra na agência não é um número, é gente de nome e sobrenome, atendida por um gerente que a conhece. E boa parte do que produz volta à comunidade: em 2026, mais de 30% do resultado de 2025 foi distribuído aos associados, e o Fundo Social destina 2% do resultado anual a entidades locais — 205 projetos só neste ano, conta a vice-presidente Katiane Luft.
Entre as ações dos 120 anos, o Desenhos que Transformam reformou espaços de seis escolas, três gaúchas e três mineiras; o A União Faz a Vida leva educação cooperativa a mais de 6 mil crianças. E também nas horas difíceis: na enchente de 2024, o Sicredi custeou o combustível dos helicópteros de resgate, instalou antenas Starlink para reconectar famílias e destinou R$ 1 milhão para reerguer a ponte entre Travesseiro e Marques de Souza.
Cento e vinte anos depois da primeira ata, a régua do futuro mudou de unidade. “Crescer não é só crescer em ativos. É crescer em relevância, é o associado enxergar valor na sua cooperativa”, diz o diretor executivo Fabrício Closs. Novas agências estão previstas para 2027 — sinal de que a Caixinha de 1906 tem muito caminho pela frente. Sempre, como gostam de dizer, de pés no chão.